sexta-feira, 17 de abril de 2020

Problema

    "Que horas são?"
    Respondi que já eram 7 da noite e que as estrelas estavam bonitas.
    "São especialmente belas quando olhamos tão de perto", falou meu interlocutor.
    Mas acredito que ele estava um pouco nervoso e que não estava raciocinando bem. Quem perguntaria que horas são em um metrô tão lotado? E também ele não questionou em que cidade, país e planeta eram 7 da noite... Poderia ser qualquer lugar.
    "Não sei o que dizer" confidenciou-me pateticamente. Diante disso eu só pude pensar que já tinha percebido a falta de assunto. Então resolvi passar ao que interessava e disse friamente que aquilo era uma entrevista de emprego.
    _Eu sei.
    Nesse instante eu quis pular pela janela do metrô e dançar entre as estrelas de pantufas. Tive que exercer um tremendo autodomínio para não fazer isso nem falar algo errado. Prendi a respiração, fechei os olhos e gritei mentalmente que seria muito difícil manter uma conversa racional com esse cara.
    _Por que você está me entrevistando?
    Boa pergunta. Era eu que em tese seria contratada. Mas não tinha muita certeza se aquela empresa de sapatos para polvos herbívoros era exatamente o que eu queria pra minha vida, logo, quis entrevistá-los, para ver se eram bons o bastante.
    _Você não passou_ informei saltando do assento.
    No mesmo instante, um polvo herbívoro saiu da cabine do comandante e disse que o veículo estava em colapso e precisariam parar no próximo planeta para fazer um reparo.
    Eu tive que desistir da minha viagem, porque quando dizem que vão parar pra arrumar, basicamente é um aviso de que nunca mais vão andar. Veja bem: esse é um metrô que liga planetas em galáxias diferentes. Ele tem 12 polegadas de comprimento (ou seja, 7 anos-luz) e 1 polegada de largura (54 anos-luz). Se a peça quebrada for lá no finalzinho do trem, eles vão demorar uns 3 anos acturianos até chegar no lugar (78 anos terrestres), simplesmente para perceber que não possuem uma peça reserva para fazer a troca que precisam.
    Além disso, até terminarem a arrumação, outras coisas já vão ter quebrado (em parte porque meteoros colidem a todo momento com a lataria, em parte porque os passageiros que insistem em ficar vomitam no chão a cada meia hora de sistema biológico).
    É por isso que eu entrevisto empresas.
    Não quero acabar igual a esse triste polvo herbívoro que por necessidade e falta de opção aceitou um emprego que nunca poderá exercer plenamente. Ser motorista é não dirigir.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Gata

    Em uma tarde comum de janeiro, surgiu na minha cozinha uma gata. Ela abriu o forno e retirou uma latinha de refrigerante como se fosse a dona do mundo. Tomou um breve gole do líquido efervecente, jogou para o lado e abriu outra lata. Nessa brincadeira de abrir e fechar o forno, de abrir e jogar latinhas pela janela para caírem dentro de uma baleia, passaram-se cerca de 19 dias.
    Já me sentia de certo modo afeiçoada a esse ser que sabia, assim como eu, apreciar as belezas do interior do gélido forno. Quis dar-lhe um nome, mas não houve tempo. Ela desapareceu tão repentinamente quanto havia surgido.
    Mais inesperada ainda foi a sua volta, quatro meio-dias depois, extremamente estufada. Há quem possa imaginar que isso se deve à quantidade absurda de pudim que seu corpo produziu com as altas doses de refrigerante. Até quem se considera especialista em cavalos marinhos pode pensar isso, mas os especialistas costumam se enganar com frequência quando o tema é a vida do reino vegetal.
    Naquela noite de julho ela teve 11 filhotes, entre porcos, gatos e cavalos. Todos saudáveis, ou era isso que eu imaginava.
    Na manhã seguinte eu fui olhar os bichinhos, e fiquei surpresa quando vi que só havia 15. Onde estavam os outros 10? Enfim, um deles era agora um porco-espinho-dentista-dos-pântanos, que me pediu permissão para deixar minha casa imediatamente. Eu obviamente concedi, dentistas são violentos.
    Observei minuciosamente cada um deles e constatei que um estava doente. Muito pequenino, não parecia ter sido alimentado pela mãe. Corri até a cozinha e observei minhas provisões, tentando imaginar o que faria bem a um gatinho tão enfraquecido. Biscoito? Não, não era boa ideia. Chocolate fumegante? O gato não ia gostar, mas eu gosto e por isso acabei comendo. Refrigerante da dimensão X? É maravilhoso, mas não. Leite? Coisa pior é impossível. Café? Coisa melhor é impossível, café é a bebida universal.
    Fiz um café sem açúcar para que ele não ficasse viciado em doce desde cedo e levei numa seringa. Depois de ter bebido tudo, no ar à minha frente apareceu um papel brilhante que dizia "Parabéns, agora você tem um morcego". O filhote ficou escuro, seus dentes cresceram e um par de asas surgiu.
    Fiquei muito brava e expulsei a todos, inclusive a mim mesma de casa.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Pizza

 
    Todos nós sabemos que a pizza é um dos alimentos mais naturais e mais saudáveis de toda a galáxia (mais saudável até do que a berinjela francesinha de Plutão), mas poucos são os seres que possuem a informação que hoje trago a vocês:
    As pizzas podem falar!
    Nem sempre isso acontece é claro, já que seria deveras mui desagradável abrir a caixa de papelão e escutar as terríveis ofensas que as pizzas comuns costumam dizer aos humanos como nós.
    Na realidade, a pizza, para ser "falante" necessita de certos pré-requisitos bastante importantes e bem detalhados, por isso, se você realmente deseja viajar na incrível mente de um ser pizzaiollo, lá vai:
 
    *Receita de pizza falante:
1:. Compre uma pizza. Pode ser do sabor que você preferir, mas recomendo que não seja de gorgonzola, essas aí tem um temperamento meio esquisito. E muito importante: Tem que ter milho! Sem milho não rola, porque ele serve como um mediador entre o mundo inanimado e o animado presentes no alimento, e ele que vai ajudar a pizza nessa difícil transição.
2:. Coloque-a no forno por 3 segundos e meio. Esse tempo deve ser rigorosamente cronometrado, já que ela deve continuar VIVA.
3:. Coloque-a no congelador por três anos lumulineares (aproximadamente 2 horas). Nesse momento, o milho começa a negociação com a parte animada da pizza e ela pode começar a murmurar bem baixinho.
4:. Coloque-a no sol juntamente com 3 três ratos cegos e uma meia velha molhada. O sol é um bom condutor de eletricidade pólo positiva e isso faz o ratos quererem comer uma meia, só que vão encontrar a pizza no caminho, vão tentar mordê-la, ela vai se irritar e tentará dizer algo.
5:. Vá na rua mais movimentada da sua cidade e grite bem alto: "eu comi picles". Não sei como isso ajuda, só sei que se você não fizer, não dá certo.
6:. Leve a pizza para um porão onde devem se encontrar: 1 marciano, 4 pés de cobra, seu namorado, 7 mariposas-xexelentas-da-Gundianósia e um gato geneticamente modificado. Tudo isso junto dá um nó seu cérebro e do da pizza também.

Parabéns! Você já tem sua pizza falante!

Agora, é preciso ter alguns cuidados:
-Pizzas são perigosas quando estão perto de água
-Não tente fazê-la conversar sobre coisas como "Como é ser um pizza?", "Você gosta de milho?", " O que você acha de sair para comer uma pizza?", etc, etc ,etc. Isso irrita pra caramba.
-Não faça essa coisa de pizza falante aos sábados
-Não deixe nada afiado por perto.

Pronto! Curta essa experiência com segurança.

Eu já fiz isso com um pizza de calabresa chamado Jorge. Ele é muito legal, toca saxofone,gosta de lentilhas, morou um ano na Áustria e mais um monte de coisas.
Olha ele ae:

Logo vocês terão mais informações sobre ele, mas por hoje, é só.


Jurema


     No século XVIII, uma garota andava despreocupada pela Finlândia, quando de repente, viu um arco-íris completamente diferente de todos os outros: ele era brilhante, ele era lindíssimo, parecia até que era possível tocá-lo...
     A garota era eu.
     Eu não estava com pressa, na realidade nem sabia onde queria chegar. Por isso, simplesmente fiz o que tive vontade: fui até o final do arco-íris.
     Lá encontrei um desses duendes que vive na sombra, ele me disse que por eu ter chegado até ali poderia escolher entre dois prêmios: ou um pote de ouro ou uma viagem.
     Infelizmente, eu conheço os duendes muito bem para dizer que o negócio do pote de ouro era mentira, mas a minha ingenuidade no momento não me deixou entender que a história da viagem também não ia dar certo.
     Abro um parênteses para dizer que estou realmente muitíssimo preocupada com o número de pessoas que ainda caem nos golpes dos duendes, por isso mesmo irei fazer um artigo para ajudar àqueles que ainda não conseguem distinguir com facilidade um duende de um pé de alface.
    Voltando com a história, eu aceitei a viagem daí ele deu gritinho agudo pra sei-lá-quem e me olhou bem no fundo dos olhos e falou desse jeito: "Gire quatro vezes, caia no chão e grite como eu fiz" eu fiquei olhando pra ele assustada, com cara de paisagem, até que ele fez uma careta e eu não aguentei mais olhá-lo e fiz o que me pedira. Depois do gritinho, ele me entregou um cubo ( parecido com um hexágono de Saturno) e me disse para jogá-lo no chão. Quando eu o fiz, um portal se abriu e a viagem começou.
     No lugar onde cheguei, havia montanhas brancas, árvore brancas e um monte de coisas brancas e de aparência gélida (apesar do calorão de -13ºC)... De repente apareceu um pônei branco... Que vomitou um arco-íris no chão. O vômito dele tingiu seu pelo e ele começou a crescer. Do nada apareceu uma pégaso voando por lá.
     O [ex] pônei e a pégaso se encontraram e se apaixonaram S2.
     Ela ficou grávida e um belo dia me chamaram para ir vê-la. Um filhote nasceu, dois filhotes, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove... O mundo ficou completamente cheio daqueles íris-córnios-pégasos recém nascidos!
     O duende apareceu então gritando igual a um duende dizendo que a culpa da "desativação" daquele mundo era toda minha e que eu deveria arranjar um jeito de levar aqueles seres todos para outro lugar.
     Eu olhei bem pra cara do duende e saí correndo em direção ao portal. Enquanto corria, sentia cada vez mais vontade de levar um dos íris-córnios-pégasos comigo, então me abaixei e peguei uma delas e voltei a correr. Cheguei no portal antes do duende e depois atravessá-lo, fechei-o e joguei a chave fora.
     Mas, como eu já disse, conheço bem os duendes para saber que eles sempre conseguem abrir portais usando pó de lua e meia velha, então, só pra garantir, continuei correndo, a unicórnia colorida (sim, ela tem um chifre) comigo e o cansaço também.
     Em determinado momento, chegamos a um lago, podendo atravessá-lo a nado ou contorná-lo. Como o contorno nos faria perder tempo, olhei pra unicórnia e falei : "A gente vai nadar". Ela me olhou bem no fundo dos olhos e falou: "Asssikirikika mima hitin hatu mikiporatuyaficavero". Eu fiquei com cara de interrogação por um momento, mas logo tive que tomar uma decisão, que foi jogá-la na água. Daí ela gritou e quase afundou, então tive que ir lá para pegá-la. Acontece que o que ela falou fora, no seu idioma nativo, Gacungalês, "Eu não sei nadar."
     Por isso, as asas dela ficaram cheias d'água, então quando lhe pedi educadamente que voasse para nos levar para longe daquele lugar, ela não conseguiu.
     Mas então ela conseguiu uma proeza melhor ainda: ela conseguiu esticar o pescoço (devido à um parentesco longínquo com batatas flutuantes do espaço) de forma a nos levar a outro lugar. Logo, me segurei nela e ela me trouxe... ao Brasil.
     Quando coloquei meus pés no solo brasileiro uns carinhas portugueses me cobraram impostos e eu fiquei pobre.
     Depois de algum tempo, avistei no jardim botânico de Vênus uma girafa chamada Jurema, e em sua homenagem, pus o mesmo nome na minha unicórnia.
     Hoje está tudo [mais ou menos] bem com ela, e espero que a família dela esteja feliz no mundo deles de arco-íris, potes de ouro e pôneis coloridos.
     Ademais, preciso dizer:
     Moral da história: não se misture com os duendes! Gentalha! Gentalha!
Jurema feliz brincando nas nuvens

domingo, 6 de dezembro de 2015

A Girafa

                                                           

    Um belo dia, em meados do mês 20, andando tranquilamente pelos campos floridos do pós-guerra escuto um berro no meio do nada. Inicialmente pensei estar louca, mas na verdade havia sim alguém gritando.
    Encontrei no leito do rio seco, depois de muito procurar quem berrara: uma girafinha muito pequena, encolhida, tilitando de frio sob a baixa temperatura de 50ºC. 
    Pensei em deixá-la lá onde estava. O que eu tinha a ver com aquela girafa? E também... Era uma girafa! Onde já se viu, ter uma girafa??? Não se você já sabe, mas aquelas manchas que esses bichos têm não são pelos de cor diferente como nos induzem a pensar, mas sim uma espécie minúscula de duendes marrons que ficam pulando igual doidos nas girafas.
    Mas então ela olhou pra mim com aqueles olhinhos de cachorro que caiu da mudança e eu comecei a imaginar o que poderia acontecer a ela se eu lhe deixasse: um dinossauro poderia teletransportá-la para o planeta Zifiteraiga, onde ela seria transformada em escrava criadora de gnomos que iriam torturar outros escravos, inclusive ela. Ela poderia dar um berro tão alto, mas tão alto que acabaria arrebentando suas cordas vocais, trazendo então sua morte e sua carniça seria comida por urubus... E o pior de tudo: Ela poderia ser levada por outra pessoa...
    Então não teve como: peguei a girafinha no colo e com certa surpresa constatei que ela não tinha pescoço. Mas que problema tem, não é? é só um pescoço mesmo...
    Trouxe ela pra casa e hoje faz exatamente 1564 anos, 10 meses, 3 semanas e 4 dias que ela está aqui e que não tem um nome.
    A Girafa Sem Pescoço não tem nome!
    Mas você nos ajudar, sugerindo algum nome pra ela. 
    Os nomes mais legais vão para uma votação...

    Seja uma pessoa legal! Sugira um nome para a Girafa Sem Pescoço!

Olha só a carinha dela de "Me dê um nome! Me dê um nome!"