quinta-feira, 16 de abril de 2020

Gata

    Em uma tarde comum de janeiro, surgiu na minha cozinha uma gata. Ela abriu o forno e retirou uma latinha de refrigerante como se fosse a dona do mundo. Tomou um breve gole do líquido efervecente, jogou para o lado e abriu outra lata. Nessa brincadeira de abrir e fechar o forno, de abrir e jogar latinhas pela janela para caírem dentro de uma baleia, passaram-se cerca de 19 dias.
    Já me sentia de certo modo afeiçoada a esse ser que sabia, assim como eu, apreciar as belezas do interior do gélido forno. Quis dar-lhe um nome, mas não houve tempo. Ela desapareceu tão repentinamente quanto havia surgido.
    Mais inesperada ainda foi a sua volta, quatro meio-dias depois, extremamente estufada. Há quem possa imaginar que isso se deve à quantidade absurda de pudim que seu corpo produziu com as altas doses de refrigerante. Até quem se considera especialista em cavalos marinhos pode pensar isso, mas os especialistas costumam se enganar com frequência quando o tema é a vida do reino vegetal.
    Naquela noite de julho ela teve 11 filhotes, entre porcos, gatos e cavalos. Todos saudáveis, ou era isso que eu imaginava.
    Na manhã seguinte eu fui olhar os bichinhos, e fiquei surpresa quando vi que só havia 15. Onde estavam os outros 10? Enfim, um deles era agora um porco-espinho-dentista-dos-pântanos, que me pediu permissão para deixar minha casa imediatamente. Eu obviamente concedi, dentistas são violentos.
    Observei minuciosamente cada um deles e constatei que um estava doente. Muito pequenino, não parecia ter sido alimentado pela mãe. Corri até a cozinha e observei minhas provisões, tentando imaginar o que faria bem a um gatinho tão enfraquecido. Biscoito? Não, não era boa ideia. Chocolate fumegante? O gato não ia gostar, mas eu gosto e por isso acabei comendo. Refrigerante da dimensão X? É maravilhoso, mas não. Leite? Coisa pior é impossível. Café? Coisa melhor é impossível, café é a bebida universal.
    Fiz um café sem açúcar para que ele não ficasse viciado em doce desde cedo e levei numa seringa. Depois de ter bebido tudo, no ar à minha frente apareceu um papel brilhante que dizia "Parabéns, agora você tem um morcego". O filhote ficou escuro, seus dentes cresceram e um par de asas surgiu.
    Fiquei muito brava e expulsei a todos, inclusive a mim mesma de casa.

2 comentários:

  1. Ameeeei, um dos textos mais viajados que li! Parabéns!!! Gosto de narrativas que saiam do padrão comum fazendo a realidade que conhecemos perder o sentido quando entramos na sua prosa...

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    1. Como eu sempre digo, você é um dinossauro no meu caminho. Muito obrigada pelo apoio! São vocês, meus amigos de viagens, que me inspiram nessa jornada. Até breve!

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